10 de novembro de 2010

Natureza realizada


Olha o fogo
            Apagou
Olha o lírio
            Murchou
Olha o amor
            Se matou
            Se matou
            De amor
            Se matou.



Thiago Mattos, In: Boi vivo



 

26 de outubro de 2010

Olhadela da pedra, Thiago Mattos

À frente dos batalhões ou dos
Espíritos
- a mesma sobra
desfalecida
teu nome de prata
se mantém
vivo
ou incógnito
a mesma sombra sem corpo que faça sombra.

E repito 5 vezes
- é tempo
é tempo
é tempo

é tempo

é tempo.

É ponto.

Bendito ruído dos que ficam:
É irritante, é passado, é vontade
Do que se deseja desejar:

Uma vida ou

Uma maçã
Sem agrotóxico.



Thiago Mattos, In: "Boi vivo"



21 de outubro de 2010

Como chegar a resultados, Thiago Mattos


Alguns livros não
Deviam ser lidos.
Não sei por quê, mas
Alguns livros não
Deviam ser lidos.
Não porque sejam muito bons
Nem muito ruins
Nem muito terríveis.
Mas alguns livros não
Deviam ser lidos.
Os meus, por exemplo, não
Deviam ser lidos
E me levam a sério.

Passa um anjo do meu
Lado perguntando:
“Cadê minhas asas?”
“Não sei”
“Quer chicletes?”, e
estende uma mão em sangue.
“Não, obrigado”, respondo. “Chicletes
me dão dor de
cabeça”.



Thiago Mattos, In: "Com as pernas para fora da janela"




17 de outubro de 2010

Aviso

A saúde e a burocracia têm impedido atualização. Peço paciência.

28 de setembro de 2010

Aperta o gatilho, doutor, Thiago Mattos


Movimento piano e revólver n.º 9 – Grave.

I

Quando nasci, não tinha nenhuma outra criança na maternidade. Fui o único a nascer naquele dia. Até hoje, só encontrei velhos que nasceram no mesmo dia que eu. Esse foi o único fato digno de nota na minha vida. Tentei ser um alcoólatra, não consegui; tentei usar drogas, não consegui; ser um viciado, não consegui; tentei jogar, apostar em cavalos, me meter com agiotas, não consegui; tentei criar uma cena, algum fato digno de ser contado entre risos numa roda de conversa, não consegui. Tentei me matar, não consegui; não consegui tentar me matar. Tive esposa. Tenho esposa. Acho que tenho esposa. Talvez eu tenha esposa. Consegui um emprego; consegui comprar um carro e um apartamento. Alguns me elogiam. Nunca fui espancado. Nunca espanquei. Nunca tive o dedo de alguém na minha cara me chamando de incompetente fodido. Tentei humilhar, não consegui, acho que não consegui. Talvez eu tenha até conseguido. Sorrio nas ocasiões que pedem um sorriso. Sorrio até mais do que pedem as ocasiões. Sorriem de volta. Às vezes não. Geralmente sim. Toda a minha geração está se especializando em alguma coisa. Também me especializei. Toda a minha geração está financiando o apartamento, criticando a religião, entrando em livrarias procurando Kafka, Dostoievski, Nietzsche, Marx, sei lá. Sorrio. Passo a mão na cabeça de um moleque do meu lado. É filho de um colega de profissão. O moleque está de roupão. Veio da natação. Ouço o moleque, olho para o pai, ele me olha, estamos num shopping, nos encontramos por acaso, sem querer. Sorrio.

II

Ontem atendi de novo o Sr. Américo. É provavelmente meu melhor paciente. Sobretudo em termos financeiros. Trato dele há um ano e meio. Ele deita, começa a me falar dos sonhos. Raramente se lembra dos sonhos, diz, mas pode sempre saber que foram maus sonhos, sonhos acompanhados de uma sensação de náusea e de ranger de dentes. Apesar disso, não acorda de madrugada. Há um ano e meio ouço basicamente isso. Cruzo as pernas, olho para a janela. Uma nuvem começa a se retorcer no céu. Anoto algumas coisas. Recorro a alguns teóricos. Falo um pouco, ele ouve. Tchau para mim. Tchau para a secretária. Até semana que vem.
Ontem, de qualquer forma, foi diferente. Sofia, a secretária do, anunciou a chegada do sr. Américo. Eu terminava de ler as anotações que tinha feito durante a seção anterior com ele. Tinha anotado qualquer coisa referente a um “estado aberrante, marcado por uma constante necessidade de estar ‘alerta’, por uma permanente sensação de perseguição e por uma capacidade anormal de se manter deliberadamente concentrando numa questão, qualquer que seja ela...”
- Já vou mandar ele entrar – falei pra Sofia enquanto a cabeça dela sumia pelo vão da porta semi-aberta. Lambi o indicador e passei as páginas do caderninho até chegar à próxima página em branco. Anotei a data. Eu fazia um caderninho para cada paciente. Geralmente preenchia dois, três caderninhos por caso. Depois guardava tudo aquilo numa gaveta de aço perto da mesa, cada caderninho separado por um pedaço de papelão com o nome do paciente.
- Qualquer coisa - eu dizia pra Sofia enquanto ela passeava com os dedos pelas espirais de arame dos cadernos -, temos todo o caso do paciente guardado.
- E isso ajuda, doutor? - perguntava ela se debruçando na beirada da gaveta aberta. Eu olhava para as pernas dela, umas pernas morenas e que estavam sempre brilhando. Meus pacientes elogiavam. Nada daquelas loucuras de mandar os empregados trabalharem cheios de panos. Eu sorria. Quando ainda estava na faculdade, e depois também no mestrado, eu me masturbava pensando numa futura secretária, algumas futuras pacientes, até alguns futuros pacientes. Dependia da criatividade do dia. Foi só começar a trabalhar que a imaginação parou. Conhecia casos de psicanalistas trepando com as secretárias. Ou cardiologistas, advogados, até ginecologistas. Qualquer profissão. Conhecia casos de gente trepando com clientes. Mas foi só eu começar a trabalhar que fiquei sentadinho atrás daquela mesa olhando as pernas de Sofia e seguindo os dedos dela que vagavam de caderninho em caderninho. Ou, então, também no tempo da faculdade, eu imaginava que eu era um paciente, ia me tratar, entrava, me deparava comigo (eu era uma pessoa qualquer, e o eu que era o médico era o eu eu-mesmo)... Conversa vai, conversa vem, trepávamos. Ficava alguns minutos imaginando os movimentos dos meus próprios cabelos, as caras que eu mesmo fazia, o que eu mesmo dissesse. Há algum tempo cogitei em passar esse tipo de exercício para alguns dos meus pacientes. Talvez eu chegue a fazer isso. A maioria deles confia em mim suficientemente. A outra parte confia em tudo que lhes soe incomum e extravagante. Fariam isso, mesmo que discordassem. Quando ninguém visse. Fariam. Nenhum perigo para a sanidade. Nada. Só passar o tempo.
Saí de trás da mesa e fui até a porta. Chamei o Sr. Américo.
O velho levantou a cabeça, levantou do sofá e veio andando.
- Tudo bem? – perguntei.
- Tudo bem, tudo bem, e com você?
- Tudo bem também.
E dei uma sonora gargalhada por causa da rima. Ele me chamava de você. Eu pedia a meus pacientes que me chamassem por você. A maioria atendia.
- Pode se acomodar, sr. Américo – falei enquanto eu me espremia entre a mesa e o arquivo de aço e me sentava para terminar de organizar as anotações.
O divã ficava ligeiramente virado de costas para mim. Uma posição que eu tinha inventado: a pessoa se deitava e, se ficasse com a cabeça virada para a direita, conseguiria me ver com alguma facilidade e saberia que eu conseguia vê-la. Se olhasse pra frente ou pra esquerda, não. Eu não via a pessoa, ela não me via.
O Sr. Américo carregava uma sacolinha de supermercado. Colocou no chão, perto do divã, e deitou.
Conversa vai, conversa vem. Isso acontecia sempre. O que não acontecia era o que eu imaginava na faculdade.
Ele começou a falar mais ou menos o que eu vinha falando:
- Você sabe, doutor... – Parou por um segundo e deu um sorriso. Tinha se tocado com o “doutor”. - Tentei beber, não consegui; tentei me drogar, não consegui; tentei ser viado. Não consegui. Tentei me matar, não consegui; não consegui tentar me matar. – Deu uma risada pra si mesmo. Eu conseguia ver que a barba dele estava um pouco crescida... Um, dois dias talvez, sem fazer a barba. Um monte de pontinhos prateados perto da bochecha, descendo para o queixo, quase invadindo o lábio murcho. – Tive sempre a impressão de que a vida dos outros era mais interessante do que a minha. E provavelmente era. Nossa vida se resume a um ponto, um só. Geralmente surgido na infância e reforçado na juventude. Um ponto para onde todos os nossos atos convergem. Um ponto infinitesimal, um buraco negro que tudo suga, um navio afundando. Um ponto que decide nossos desejos, necessidades e escolhas. Nossa reação e nosso gesto. Tudo que fazemos é tentar enchê-lo. Tudo que queremos é encher esse vazio específico e primordial.
Parou então de falar. Respirava com alguma dificuldade.
Recomeçou.
- Por isso eu matei. Todos nós precisamos acordar à noite sendo sugados por um buraco concreto, por um vazio concreto. Minha era e foi sempre uma linha sem oscilação. Eu não tinha então o direito de sofrer, diziam. Comida, casa, esposa, salário. O vazio sobrava. Mas eu não sentia o vazio. Eu não podia sentir o vazio, diziam. Não tinha do que nem por que me revoltar. Mas eu precisava sentir o vazio. Não queria sentir o nada, queria sentir o vazio.
Parou de falar. Falava picotado. Isso era comum. Eu anotava.
- Quem o senhor matou? – perguntei descansando a caneta no caderninho.
- Eu queria me matar, doutor. Tentei me matar, não consegui... – falou com uma entonação que remetia ao ritmo que dera antes. – É isso. Eis aí a minha vida.
- Quem o senhor matou? – repeti.
Ele se soergueu do divã. Parecia que tinha acabado de acordar. Esticou o braço, puxou a sacolinha com a ponta do dedo. Levantou a sacola até o colo. Tirou de lá uma lata de leite em pó.
- Essa é uma das coisas mais intrigantes que alguém pode encontrar na vida – ele disse. Virou o rótulo para si. Levantou a lata até a altura dos olhos. – Leite em pó. Em pó! Veja, em pó, leite, leite em pó, , pó de leite, em pó!
Eu fiquei um tempo calado.
- Sr. Américo – falei -, eu vou repetir. Quem o senhor matou?
Ele colocou a lata de volta na sacolinha, voltou a deixar a sacolinha no chão.
- Me diga, doutor – começou ele. – Quem o senhor matou?
Anotei no caderninho isso. Levantei a cabeça. Sorri.

III

Nisso, entrou a minha secretária. Deu duas batidinhas na porta e enfiou a cabeça pra dentro.
- Aquele senhor... Ai, meu Deus, esqueci o nome dele. Ricardo! O Sr. Ricardo já tá aqui.
Tive que sorrir. Ela era doce com a cabeça enfiada ali e o joelho se insinuando pra dentro da sala. Ela começou a rir.
- Eu, hein – falou. E fechou a porta.
Bocejei e levantei de trás da mesa. Fui até o divã. Sentei do lado do Sr. Américo.
- Muito bem, meu caro – falei. – Muito bem. Sou suficientemente humano pra te ajudar num dos seus intentos.
- Sim?
- Sim.
- Qual?
- O menos perigoso e o mais fácil: o do suicídio.
O Sr. Américo olhou pra baixo. Esfregou as mãos nos joelhos. Agachou-se um pouco e puxou de novo a sacolinha. Pegou a lata de leite em pó. Ficou com o rótulo à altura dos olhos.
- Veja você, doutor, essa é a coisa mais estranha que alguém pode encontrar no mundo: leite em pó. Em pó! – Ficou estalando a língua no céu da boca e sacudindo a cabeça.
- Deixa isso, Sr. Américo, deixa isso, deixa isso! – Peguei a lata de leite em pó e joguei dentro da sacolinha. – Então, o que me diz?
Ele ficou um tempo em silêncio.
- Eu não sei. Veja bem: você só quer provar pra esses psicanalistas filhos da puta que um homem comum pode do nada meter uma bala na cabeça, não é isso?
Levantei as sobrancelhas como quem dissesse “não sei, talvez, etc...”
- É possível, eu não sei. Ora, ora, ora! – comecei a balançar a cabeça negativamente. – O que que eu tô dizendo? É claro que não é isso. Tudo o que eu quero é exercer minha profissão, minha função na sociedade: curar o indivíduo. Curar o indivíduo de alma atormentada. Convenhamos, essa é talvez a mais definitiva das curas. Pelo menos se não nos perguntarmos muito sobre o que acontece depois. Não só isso. Veja bem, Sr. Américo: quero também demonstrar minha humanidade intacta, apesar da posição fria que ocupo, dando a um atormentado o prazer de ver um desejo sempre fracassado realizado.
- Os homens mais pessimistas são, em geral, os homens mais apegados à vida – ele disse.
Um avião passou por cima do prédio. As vidraças tremeram. A sombra das asas cruzou o prédio da frente.
- E por que não outra coisa? – ele perguntou.
- Que outra coisa?
- Satisfazer um outro tipo de desejo.
Ele deu uma risadinha. Pegou a lata de leite em pó. Ficou passando o indicador em volta da beirada da tampa. Apontou com a cabeça em direção à porta. Fiquei um momento olhando pra a porta. Franzi o cenho. Não compreendia.
- Ah, ah! – falei de repente. Sorri. – Ora, Sr. Américo! Ha, ha, ha! agora entendi. – Aquilo tinha me deixado mesmo muito puto. De repente percebi o quanto Sofia era vulnerável e, mais ainda, livre. Mas sorri. – Pensa, Sr. Américo: o que eu poderia fazer para que você chegasse a seus, digamos, objetivos mais prementes? Nada. Nada posso fazer. Mas para atingir esses objetivos que te ofereci, posso fazer tudo. Eu e qualquer outro homem. Qualquer outro homem, isso é muito importante, Sr. Américo: é preciso ser suficientemente humano.
O velho ficou na dúvida. Abriu um pouco a boca. Um buraco preto. A borda era pele solta, pele frouxa, pele descascando. E, um pouco acima, toda aquela barba de dois dias, todos aqueles fiapos minúsculos e endurecidos, prateados, curtinhos, descendo até o queixo.
- Sr. Américo, me diga: quantos anos o senhor tem?
Balbuciou alguma coisa, sem fechar a boca. A mão que antes usava em cima da tampa da lata de leite em pó, enquanto me falava das intenções com a minha secretária, agora ele a usava para ficar com um gesto perdido no ar, um gesto que caiu com a mesma hesitação com que parou de balbuciar. Levantei de repente.
- Vamos ver na sua ficha... – falei enquanto andava até minha mesa.
Puxei a gaveta de aço, sentei no banquinho em que Sofia se sentava para se distrair com os caderninhos. Fui murmurando os nomes enquanto passava as fichas com a ponta do dedo.
- ...aqui! Sr. Américo, sua ficha... – Levantei, fui pra trás da mesa. Eu continuava de cabeça baixa, olhando a ficha. Ouvi o som da sacolinha do Sr. Américo. Levantei a cabeça. – Sr. Américo, essa lata de leite em pó de novo... – Mas parei no meio. No meio da sala, em pé, ele me apontava um revólver. A sacolinha estava debaixo do outro braço, agarrada entre o braço e as vértebras. A lata de leite em pó quase tombava pra fora. Olhei para a porta. Ele acompanhou meus olhos. Ameacei mexer uma perna. – Sr. Américo – falei enquanto começava a esboçar um passo para o lado -, que porra é essa, Sr. Américo?
Consegui dar o primeiro passo, comecei a dar o segundo. Fiquei entre a quina da mesa e a gaveta de aço aberta.
- Ei! – gritou ele. – Pára, pára, pára!
Começou a tremer. Não sei por quê, mas ver o Sr. Américo agitado e fazendo força pra não tremer me fez dar outro passo. Ele armou a arma.
- Sr. Américo, Sr. Américo, por favor... O que é isso, Sr. Américo? Calma, Sr. Américo...
Ele tremia. Usou a outra mão pra segurar o revólver. A sacolinha com o leite em pó caiu, a lata abriu, o leite em pó se esparramou no chão. Senti o cheiro forte do leite em pó, quase podia sentir o gosto grosso na minha boca, o pó se acumulando no céu da boca, uma papa dura se formando lá em cima.
- Sr. Américo, por favor, Sr. Américo... – eu ia dizendo e andando até ele. Ele tremia, tremia, só sabia tremer. Olhou para o chão, olhou para a nuvem amarelada de leite em pó no tapete. Abriu mais a boca, de novo a boca aberta como um buraco negro, as bordas murchas e ressecadas. O velho parecia que não tinha saliva. Eu estava há, sei lá, um metro dele. Estiquei um braço. – Sr. Américo, por favor, Sr. Américo... A arma, a arma... – Fui chegando a mão até o cano. Ele tremia, eu quase não sabia se ia conseguir encostar no cano sem errar, de tanto que ele tremia. – Sr. Américo, calma, Sr. Américo... – Botei a mão no cano, depois levantei o outro braço, já bem mais rápido, e segurei do outro lado. Logo eu estava com os dedos indo por cima do tambor e pela coronha. Ele me olhou com o rabo do olho. Olhava agora de novo para o chão, a boca meio aberta, os olhos arregalando. Largou a arma e se agachou. Ficou de cócoras. Pegou a lata de leite em pó, começou a juntar uns punhados do pó no chão e a devolver para a lata. Estava desesperado. Murmurava alguma coisa, com uma voz muito fina e cheia de soluços. Pegou a tampa de alumínio, encaixou na boca da lata.
- Me venderam uma lata já aberta... – disse ele. – Uma lata já aberta... – dizia ele.
Pegou a sacolinha, que estava perto do pé, e guardou a lata. O plástico preto estava todo embaçado, tinha pó por cima dele, pó entre as dobras do plásticos. Ele apoiou uma mão no joelho e se levantou.
- Seu velho filho da puta! – comecei a berrar quando ele ficou na mesma altura que eu. Segurei a gola dele. – Você quis me matar, seu filho da puta! Velho filho da puta! – Ele sacudia a cabeça como se dissesse “não”, a boca aberta, aquele buraco indefinível balançando por causa da pele frouxa. Eu sacudia o velho pela gola, ele tentava murmurar alguma coisa, saía uma voz estranha, parecia uma bolha sonora, uma porcaria balbuciada. – Eu vou te furar a cabeça! – eu berrava. – Vou te furar, estourar teu cérebro, teu crânio, tua mente, velho filho da puta!
Então ele largou a sacolinha. Ouvi a lata caindo no tapete e a tampa de alumínio rolando pela tábua corrida. Oscilou até tombar, ficou dando voltas até repousar de vez. Fiquei calado. A boca dele tremia, o pescoço também. Não gritava. Gemia pra dentro, o papo tremendo, as bochechas tremendo, os olhos esbranquiçados enchendo d’água. Então, percebendo que eu já não fazia tanta força na gola, juntou as duas mãos, encostou aquelas duas mãos unidas no meu peito.
- Por favor, doutor, por favor, doutor – ia dizendo enquanto descia as mãos em mim e se ajoelhava. – Não, doutor, não... Doutor, não... Não me mata doutor...
Ficou ajoelhado e com as duas mãos unidas perto do meu pau. Olhei a arma de perfil. Encostei o cano frio na minha boca fechada. Meu pau começava a ficar duro. Olhei para a cabeça do velho inclinada. Ele olhou pra mim. Abri a boca, enfiei o cano lá dentro.
Ele desviou os olhos dos meus, ficou de cabeça baixa olhando para os meus pés. Tirei o revólver da minha boca, o cano babado, fui descendo o revólver, apontei para a cabeça do velho. Ele olhou para mim, ele estava paralisado. Os ombros tremiam, a cabeça tremia, a voz tremia, as bolsas murchas debaixo dos olhos, as mãos em cima do meu pau tremiam. Parei. Subi de volta com o cano. A mão do velho parou de tremer. Ele fungava. Apontei o cano do revólver para a minha cabeça. Ficou o cano frio na minha têmpora. Arregalou aqueles olhos cheios d’água, voltou a balançar a cabeça como se dissesse “não”. Aí – parou. Estava calmo de repente. Parecia até que me desafiava. Apertei a boca.
- O senhor... – ouvi minha secretária dizer enquanto batia na porta e a abria sem esperar resposta. Abaixei a arma rápido. Cheguei pra trás, tentando me desvencilhar das mãos do velho. Fiquei um pouco curvado, olhando para a porta e tentando esconder a arma atrás de uma perna. – O senhor... – repetiu. – O que tá aqui fora esperando... O Sr. Ricardo... Ele quer saber se ele pode voltar mais tarde, porque tem que ir ao banco agora... – Fez uma cara de quem buscasse de novo meu sorriso cheio de cumplicidade, como se fôssemos amigos, íntimos, sei lá.
- Ah, sim, sim – falei. – Aconteceu um acidente aqui... Tamos tentando limpar – falei.
- Deixa, por favor, deixa, eu limpo isso – disse ela olhando para o chão e entrando na sala. Veio andando, uma mão segurava os cabelos para que não caíssem na cara enquanto andava olhando pra baixo. Ficou do meu lado. Parecia que ela pisava em alguma coisa nojenta. Colocou a mão no meu braço. – Eu já volto, vou pegar um pano no banheiro. – Foi andando de volta do mesmo jeito, e saiu.
O velho, ainda ajoelhado, fingia que juntava o pó com a mão. Formou aqueles punhados, foi devolvendo tudo pra dentro da lata. Olhei pra ele, achei que talvez ele olhasse pra mim. Mas não olhou. Foi engatinhando até a tampa da lata ali perto, voltou, tampou a lata. Levantou e, sacudindo a sacolinha, guardou a lata.
- Bom, doutor – ele disse -, perdemos a noção da hora hoje. – Começou a se dirigir pra porta enquanto dava umas batidinhas na sacola. Andava também olhando ao mesmo tempo pro chão, como se ali estivesse derramado sangue, merda, vidro, alguma coisa nojenta ou perigosa. – Até quinta – ele disse da porta.
- Até quinta – respondi.
E já via entrando de novo na sala a minha secretária. Dobrava um pano de chão encardido. Levantou os olhos pra mim. Ajoelhou pra começar a limpar. Sorri. Acho que não deu tempo pra ela ver que eu sorria.



Thiago Mattos, In: "Sinfonia de uma comunhão" 




23 de setembro de 2010

Entrevista de Umberto Eco (trechos)

[...] A lista não destrói a cultura; cria-a. Para onde quer que olhe, na história da cultura, há-de encontrar listas.[...] No "Ulisses", James Joyce descreve o modo como o seu protagonista, Leopold Bloom, abre as gavetas e tudo o que nelas encontra. Eu considero isso uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou então tomemos Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta dar a noção do tamanho do exército grego. De início, recorre a comparações: "Tal como um grande incêndio de floresta, rugindo no topo de uma montanha, se avista ao longe, assim também, ao marcharem, o brilho das armaduras iluminava o firmamento". Mas não fica satisfeito. Não consegue encontrar uma boa metáfora e, por isso, pede às musas que o ajudem. Então tem a ideia de enumerar muitos, muitos generais e os seus navios. [...] No princípio, pensamos que uma lista é uma coisa primitiva e típica das culturas mais antigas, que não tinham uma concepção exacta do universo e que, portanto, estavam limitadas a enumerar as características a que conseguiam dar nome. Contudo, na história da cultura, as listas continuaram a prevalecer. Não são de modo algum uma mera expressão das culturas primitivas. Na Idade Média já havia uma imagem muito clara do universo e também havia listas. Uma nova mundividência baseada na astronomia dominou a Renascença e a época do Barroco e as listas continuaram a ser usadas. Também na era pós- -moderna as listas têm um papel importantíssimo . Têm uma magia irresistível. [...] A obra de Homero toca repetidamente no topos do inexprimível. As pessoas fazem sempre isso. Sempre sentimos fascínio pelo espaço infinito, pela interminável série de estrelas e de galáxias. Como se sente uma pessoa quando olha para o céu? Pensa que não tem línguas suficientes que descrevam o que vê. Mesmo assim, as pessoas nunca deixaram de descrever o céu, recorrendo ao simples expediente de enumerarem o que vêem. Com os amantes passa-se o mesmo. Sentem uma deficiência na linguagem, uma falta de palavras que exprimam os seus sentimentos. E será que alguma vez os amantes desistem de o tentar fazer? Fazem listas: os teus olhos são tão belos, a tua boca também, e o teu colo... É possível ser muito pormenorizado. [...] Nós temos um limite, um limite muito desanimador e humilhante: a morte. Por isso gostamos de tudo o que para nós não tem limites e que, portanto, não tem fim. É uma fuga que nos distrai de pensar na morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer. [...]



Umberto Eco em entrevista para iOnline
http://www.ionline.pt/conteudo/36209-umberto-eco-o-google-e-uma-tragedia-os-jovens

21 de setembro de 2010

(sem título), Thiago Mattos


Ter nome é morrer.
Nomear é imaginar viver.

Há dentro da dor outra dor.
Há atrás do sol
sombra.
Há antes da gosma
doçura, calda quente que vai amornando os olhos.
Depois do sangue,
a água
o mármore avermelhado,
o pano (manchado)
de molho no balde.


Thiago Mattos, In: "Os dias que se movem"