8 de setembro de 2010

O nascimento, Thiago Mattos


Na maternidade da
Santa casa,
Meu menino,
Morreram vinte bebês:

Paco, Sofia, Santiago, Maria, Miguel, Ramón, Nancy, Mr. Walker, papai, mamãe...

Canta tua saudade:
É tarde.

Não há mais do que
Fechar a vida.

Teu corredor
aberto em pânico
(vinte portas de vinte apartamentos)
as praças explodidas,
os ônibus à beira mar,
os motoristas de táxi dirigindo
em cima de pontes
de 5 cm de largura
e nunca pensam:
suicídio.

E os prédios de laboratórios, escritórios, salas,
Olás,
Combinações – que será?
Que será do sol
Na pupila e do sol no casaco
E da lua fria no ouvido?

Faz frio.

É frio, é patético, é mudo, é olhos,
É dente enferrujado, é estampilho –
Mas é o caminhão trazendo os 20 bebês
Apodrecidos.

O gargalo dos destilados, as listas de doação, as agulhas
Do teu parto,
As escadarias de quando morreres
E te levarem por corredores
E haver porta que leve ao velório.

Então eu me calo e te peço:
Acode.
Ajuda.
Ainda que a voz seja
Oca
E a
Verdade
Repugnante:
Ajuda
Ainda que eu te peça
Ajuda
E te interrogue
Ajuda
Te rompa o ouvido
Ajuda
Te corrompa
Ajuda
E fique o sangue nas paredes
Ajuda
Ajuda
Ajuda
Ajuda te peço: acode.
Para que seja sangue nos lençóis.
Sol em todas as bocas.
Sal na terra sem fendas.
Cemitério na minha carne.
Memória nos meus dias.
Angústia dos meus tempos.
Saudade do que se conhecerá.
O que vives e conheces
E não vivo ou conheço.
Cemitério de hemácias
- no meu fígado
Por ti:
Amém.


Thiago Mattos, In: "A poesia é um canhão com buraco dos dois lados"

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