Movimento para grama úmida e poeira – Lento.
Meu cachorro pegou um pedaço de papelão e eu corri atrás dele. Não tinha um porquê, eu não sabia nem porque eu fazia isso nem porque ele fazia aquilo. Já tinha algum tempo que eu tinha adotado um modo de vida que consistia, brevemente, em não me opor ao que os outros fizessem. Um papelão não fazia mal. Correr atrás de um cachorro não fazia mal. Principalmente se você achasse que ele era teu cachorro. Qualquer outra pessoa que eu visse correndo atrás de um cachorro porque ele tinha pego um papelão... bom, isso ia me encher de raiva bruta. Por que as coisas não podem simplesmente nos rodear sem que nos oponhamos a elas? Aí isso em si já anularia o modo de vida que eu tinha adotado, ainda que o pensamento fosse de acordo com ele e ainda que eu só ficasse sentado, sem me opor em atos.
Eu estava deitado, ele apareceu com um pedaço de papelão na boca, corri e ele correu, ele olhava pra trás com o papelão pendurado na boca, parecia que sorria, mas não sorria, porque os cachorros não sorriem, o papelão mole, manchas escuras de saliva, pedaços de papelão caindo pelo caminho, uma textura mais clara e ondulada saindo à mostra nos rasgos.
Ele correu para um morro perto da casa, um amontoado de árvores e mato rasteiro. Segui pelo canto do muro. Não passava muito carro na rua àquela hora. Estava certo de que já não o pegaria. Mas continuei. Ele ficou parado. Quando cheguei perto, levantei a mão pra lhe dar um tapa, mas ele correu e foi mais pra cima. Ficou no meio de umas árvores, com o papelão destroçado na boca, me olhando. Comecei a subir. Já não queria correr, queria só voltar e me deitar. Mas era preciso manter a pose austera, alguma dignidade, por orgulho ou por momento. E o momento me levou a, de súbito, sair correndo como louco. Meu cachorro começou a saltar. Correu pra baixo saltando. Chegou perto de mim e zapt! dei-lhe uma palmada nas costas! Fez um estalo! Ele fechou os olhos, soltou o papelão úmido perto do meu pé e fugiu de volta pra cima. Não gritou. Não fez nada. Só voltou pra lá.
Me arrependi, mas sempre me arrependo de tudo. Às vezes penso que é uma forma de, como o tempo, não sofrer de arrependimento.
Desci e fui me deitar. Ele, que sempre vinha deitar encostados aos meus pés, não apareceu. Dei 10 minutos, fui de volta para a rua, subi um pedaço pequeno do morro. Deitado debaixo de uma árvore, ele olhava para a paisagem, a boca aberta, a língua pra fora. Quando me viu, fechou a boca. Me enchi de satisfação. Era medo o que ele tinha, medo e muda submissão. Eu podia abrir os olhos e ele teria medo. Eu podia me abaixar e acariciá-lo e ele se sentiria agradecido por eu não lhe dar um tapa. Tinha pena, mas a cara dele de acuado me deixava com alguma outra coisa saindo pelos olhos. Cheguei perto dele, abaixei a cabeça, arregalei os olhos, fiz força pra que eles ficassem vermelhos; pus o queixo pra frente e abri os braços. Esbarrei com o antebraço numa árvore; senti uma coisa fina, ouvi um barulho estalado, como se fosse uma folha seca amassando; olhei e, no tronco, estava uma esperança. Verde, grossa, gorda, uma carapaça brilhante que parecia couro verde.
Corri esfregando os braços.
O horror me subia pelas pernas como se eu estivesse me mijando ao contrário. Uma nuvem de esperanças viria pra cima de mim, tomaria minha blusa, se embolaria nos meus cabelos. E tirar a blusa seria o mesmo que colocar as esperanças em cima da minha pele. Tudo o que eu queria, eu, que tenho medo de aranhas, era que uma aranha surgisse e, como se só a sua presença já fosse uma salvação, comesse a esperança, uma mancha escura e raiada fazendo sumir um traço verde.
Thiago Mattos, In: "Sinfonia de uma comunhão"





























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